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E aí?

Eu Bebi a Mecca-Cola
Alcino Leite Neto


Estava passando pela praça de Catalunya, em Barcelona, quando vi um conjunto de grandes tendas brancas. Entrei numa delas. Era uma espécie de mercado mambembe, com prateleiras de madeira exibindo produtos de embalagens austeras. A tenda era uma loja de "comércio justo".O que é isso? "É uma forma alternativa de comércio que busca alcançar relações comerciais mais equânimes entre os países ricos do Norte e os países pobres do Sul do planeta". Assim estava escrito na sacola onde colocaram minha compra. A explicação ao consumidor continuava, na mesma sacola de papel reciclado: "O comércio justo leva em conta valores éticos e de meio ambiente, em confronto com critérios exclusivamente econômicos do comércio tradicional, e se baseia nos seguintes princípios: preço justo que cubra o custo da produção dos artigos; retribuição digna pelo trabalho; respeito pelos direitos humanos e trabalhistas; erradicação da exploração infantil; benefícios sociais para as comunidades produtoras; respeito pelo meio ambiente".
 
Nas prateleiras, havia uma vasta quantidade de alimentos: cereais, cafés, chás, chocolates, biscoitos etc. Nas embalagens, não constava nome de marcas, nem os apelos próprios da publicidade capitalista. Destacavam-se as palavras que definiam a mercadoria, como "café", e uma explicação a respeito da sua procedência, de quem o produziu e em que condições. Os produtos do "comércio justo" são em geral resultado do trabalho de comunidades organizadas em regiões pobres do planeta, de onde são transportados para os centros mundiais do capitalismo, como Barcelona, por ONGs e associações políticas.
 
Comprar no "comércio justo" é uma nova tendência na Europa, sobretudo entre os jovens. Alimentam a nova onda a crescente preocupação ecológica, a aversão à manipulação química e genética dos alimentos, o incômodo com as desigualdades sociais e certa atitude de rebeldia presumida no ato de consumir um produto que atravessou o mundo sem passar pelas mãos das cinco ou seis grandes megacorporações que dominam o mercado mundial de alimentos.Uma tenda assim, como a de Barcelona, é quase o oposto de um supermercado comum, apesar de imitar um pouco o seu formato. Quando vamos a um supermercado, pensamos exclusivamente em nossas necessidades, nossos gostos, status e superstições, e raramente questionamos socialmente os produtos. Quando entramos na loja do "comércio justo", ao contrário, é preciso um grande esforço para relacionar nossas demandas pessoais com a mercadoria ali exibida. É como se, a cada vez que apanhássemos um produto, estívessemos desmontando mentalmente a cadeia produtiva e criando um elo social com grupos humanos muito distantes de nós e nos comprometendo com um novo modo (quase utópico) de comércio, de produção de bens e de vida. Não é fácil.
 
Eu queria apenas um chocolate. Fui então à prateleira específica. Não conhecia os produtos, portanto não tinha preferência por nenhum deles, todos me pareciam iguais, embora de procedências muito diversas. Li cada uma das descrições nas embalagens, que com suas cores em tom pastel evitavam qualquer apelo ao exotismo. As descrições contavam detalhes da origem da mercadoria e de sua produção: um dos chocolates fora feito por índios dos Andes, outro, por uma comunidade no interior da África, e assim por diante.Pensei que todas aquelas barras de chocolates talvez tivessem o mesmo gosto insípido, sem a tradição dos produtos belgas ou suíços, nem a alquimia futurista das marcas superpopulares que rodam o planeta. Enganei-me. O chocolate da comunidade andina, um moka, era delicioso, dos melhores que já experimentei. Seria então possível conciliar o prazer individual com o compromisso social? Foi o que me perguntei, ao jogar a embalagem vazia no lixo.
 
Entrei em outra tenda. O "comércio justo", expressão que ainda me parece conter um paradoxo, havia me seduzido. Em vez de procurar por marcas renomadas, eu iria agora me aventurar entre produtos vindos de regiões desconhecidas, esperando que meu dinheiro fosse parar nas mãos de quem mais precisava, e não no cofre das multinacionais.
 
Estava com sede e queria um refrigerante. E eis que avisto uma garrafa muito parecida à da Coca-Cola, com um rótulo que explodia em cores (vermelha e branca) no meio daqueles produtos de embalagens frias. A garrafa colorida era da Mecca-Cola, a anti-Coca-Cola muçulmana. Mas o que estava fazendo ali, na tenda de alimentos politicamente corretos, a Mecca-Cola? Afinal, a produção de qualquer cola demanda uma série de colorantes artificiais, de acidificantes, de toda uma parafernália química e antiecológica. E, além disso, a Mecca-Cola não é feita por uma coletividade pobre nos cantos da Terra, mas por uma empresa comum, sediada na França, de propriedade de um muçulmano, que aspira conquistar capitalisticamente o mercado árabe e o gosto alternativo mundial. Foi o que falei à balconista, tentando lançar a ela uma provocação definitiva.
 
Ela me olhou espantada, mas tinha a resposta na ponta da língua. "É uma exceção que abrimos, pois a empresa que faz a Mecca-Cola doa parte de sua renda para trabalhos sociais." E me mostrou o rótulo na garrafa, que dizia, em inglês (e em árabe): "10% - caridade local" (segundo um site, destinados a crianças palestinas). Não me convenceu. Não que eu suspeitasse da doação. Mas, de repente, a tenda de "comércio justo" adquiriu para mim uma atmosfera ideológica antiquada, ao fazer concessão a um produto organicamente incorreto e empresarialmente convencional apenas para afrontar um dos mitos do capitalismo norte-americano. "Quer dizer então que, se a Coca-Cola passasse a doar 10% de sua renda à caridade, vocês começariam a vendê-la também?", perguntei à mocinha, que me olhou sem respostas, com algum desprezo, depois de receber os 2 euros (quase R$ 8,00) por minha garrafa de um litro e meio de Mecca-Cola.
 
Estava louco para experimentar esse refrigerante, de que ouvira falar tantas vezes. Imaginava que ele traria ao paladar certas reminiscências orientais, pré-capitalistas, mescladas ao sabor moderno da Coca-Cola _criando assim uma síntese líquida, que, num só gole, resolveria o problema do "choque de civilizações" formulado por Samuel Huntington.Que nada! A Mecca-Cola tinha o mesmo sabor desses genéricos de cola que existem nos supermercados populares brasileiros. Não era ruim, mas era desprovida de qualquer novidade ou originalidade, seja no gosto, seja na embalagem, bastante imitativa, exceto por alguns escritos em árabe e pelos slogans políticos que exibia."The taste of freedom!" (o gosto da liberdade) era uma das frases estampadas no rótulo da garrafa. "Não beba mais como um idiota, beba como um engajado" era a outra frase, uma estranha mescla de apelo publicitário com slogan situacionista.
 
Mas "engajado" com o quê? Não está claro. Não importa. A Mecca-Cola, apesar de seu gosto trivial, é um extraordinário produto desta época: ela é a confirmação de que a ideologia está se transformando em marketing, de que os sujeitos políticos estão se transfigurando em consumidores auto-críticos e de que o antiamericanismo é apenas um estágio avançado do próprio capitalismo.

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Em minhas andanças na ala ultra-direitista brasileira, encontrei coisas interessante. Olhem essas duas camisas. Uma ótima idéia, além de engraçada.



Acho que vou falar com Adriano pra fazer umas dessas.
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Nessas minhas perigrinações virtuais aos mais variados museus vejam só o que eu encontrei:
o MOBA - MUSEUM OF BAD ART
Isso mesmo....o primeiro museu destinado à conservação e divulgação da "bad art" !!! E o slogan é :TOO BAD TO BE IGNORED
A sede fica em Boston e o grande evento lá do museu são as expoxições feitas nos car washes, que eles descobriram ser excelentes galerias.... (!!!)
Vale a pena dar uma olhada...
www.museumofbadart.org


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A piada mais infame (lembram?)



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O Pathos Razoável
PARRET, Herman. A estética da comunicação: além da pragmática. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1997.



Motivações do Sujeito: Uma premissa que permeia todo texto é a de que o sujeito é, antes de um sujeito racional, um ser de paixões. Parret, indo de encontro à tradição racionalista, acha que todo discurso é, antes de tudo, motivado por uma paixão subjacente. É exatamente esse pathos que torna as relações intersubjetivas, como também a cultura, possíveis de serem vividas e um estudo que não o leve em consideração estaria fadado à superficialidade. Para Voltaire, “ a paixão infla as velas do barco, sem o que nós não poderíamos navegar” (Voltaire In Parret, 1997 p.107)

Pathos X Logos: Na história do pensamento ocidental, o pathos sempre foi tratado em uma oposição ao logos. Enquanto o logos diria respeito à razão, à vida, à claridade (Iluminismo); o pathos foi, muitas vezes, associado ao caos, quando não ao patológico ou o patético. Além dessa oposição, a ascensão do romantismo e a tomada dos sentimentos como matéria prima exclusiva da arte, fizeram com que o pathos se tornasse um assunto secundário nos tratados filosóficos. Parret destaca algumas obras que trataram do tema: A Retórica de Aristóteles, Les passions de l´âme de Descartes e Antropologia de um ponto de vista pragmático de Kant. No final desse primeiro tópico, Parret argumenta pela dissolução da dicotomia entre pathos e logos, já que da mesma forma que toda razão tem uma paixão subjacente, todo paixão tem suas razões. Fazendo isso Parret procura tirar o estudo as emoções do limbo esotérico e trazê-lo para academia.

Terminologia: Talvez pelo fato da pouca tradição nos estudos das paixões, a terminologia para lidar com a vida afetiva é confusa. A definição de emoção, paixão e sentimento não tem um consenso total. Vejamos algumas definições

Descartes: Vê uma conecção entre emoção, movimento e momentaneidade, de um lado e entre sentimento e um entendimento intuitivo.

Kant: Vê a emoção como um choque abrupto, intenso e acompanhado por um aumento ou interrupção dos movimentos. A paixão seria uma emoção que se tornou fixa.

Ribot: A emoção seria um produto da natureza, enquanto a paixão seria um produto da reflexão, ou ao menos da imaginação.

Diante das diversas definições, Parret procura fazer uma caracterização mínima. “A paixão situa-se no nível do jogo das faculdades: imaginação, entendimento, desejo. É complexa, mas sistemática, porque está confinada à subjetividade modalizada. O sentimento é a paixão assumida, que se desdobra na esfera da auto-sensibilidade; é por isso que o sentimento é reflexivo e, em princípio, controlável. A emoção manifesta a paixão e o sentimento: é simples e homogênea, imediata, direta, embora seja sintomática de uma estrutura passional subjacente” (Parret, 1997 p.110).

Prolegômenos: a economia discursiva do pathos

O pathos no discurso: Manifestar as paixões pelo discurso – seja ele verbal, escrito, televisionado, ou de qualquer outra natureza – já constitui uma organização, uma estruturação do pathos – Parret chega a falar de domestificação. A paixão comunicada já é sempre uma paixão razoável porque é expressa em uma gramática restritiva.

Retorização: Para o retórico Bernard Lamy as unidades que as paixões gravam nos discursos são figuras. Para ele, é necessário que o discurso carregue marcas das paixões que o move para que possamos nos comunicar com nosso ouvintes. Do ponto de vista da retórica, o orador deve imprimir essas marcas no discurso, afim de melhor ser compreendido. Fontanier discorda dessa figurativização ativa do discurso, para ele todo discurso é objeto de um investimento passional. As figuras no discurso seriam indícios das paixões do sujeito e não apenas ferramentas retóricas.

Performatização: “Toda atitude proposicional, toda modificação de um conteúdo proposicional por um operador epistêmico ou erotérico ou por qualquer modalização já constitui a introdução, no discurso, de um pathos subjacente.

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